Mulher relata câncer, desemprego e dor do despejo de residencial popular

Jessica Bachega

jessica@gazetadigital.com.br

Jessica Bachega

Jessica Bachega

Desempregada, com câncer e dividindo o teto com mais 8 pessoas, Liliane Magalhães, 43, chora e se desespera ao relatar que foi excluída da lista de beneficiários pelo aluguel social pago pela Prefeitura de Cuiabá. Ela é uma das moradoras despejadas na quarta-feira (6), do residencial Jonas Pinheiro 3.

Leia também -Menino de 11 anos morre afogado em piscina de casa em construção no interior

Na manhã de quinta-feira (7), a mulher ainda estava no local, reunindo os poucos móveis que tinha para levar à casa de um conhecido. A prefeitura de Cuiabá emprestou caminhões para que moradores levassem seus pertences para outro lugar. No entanto, as atividades foram encerradas às 17h na quarta e retomadas na quinta.

“Às 10h30, a assistente social falou pra mim que eu iria receber o aluguel social. Às 16h40 me falaram para procurar uma casa, porque eu não estava mais na lista”, conta a mulher, chorosa.

Ainda na quarta, as ligações clandestinas de água e energia foram arrancadas e os ocupantes que permaneceram para mudar nesta quarta, passaram a noite no local, sem condições mínimas de habitação. Os móveis colocados para fora de casa, por ordem da prefeitura, teve que ser levados para dentro, de novo, para que não molhassem na chuva que caiu no local a noite.

“Ficou tudo na rua. Uma e meia da manhã tivemos que correr, lutar para cobrir o pouco que a gente tem. O colchão está todo molhado”, afirma.

Liliane ainda denuncia a truculência policial, que mandou que ela saísse de casa e ameaçou de prisão, porque ela o respondeu.

“Ele mandou a gente sair. Sair para onde? A gente já está na rua. Quer me prender? Me prende, pelo menos lá eu vou ter casa e comida”, conta desesperada.

Liliane trabalhava na limpeza do Hospital Júlio Müller, em Cuiabá, mas foi afastada quando teve o diagnóstico de câncer de ovário, em maio desse ano. Desde então, espera pela cirurgia. Durante 3 meses, recebeu dinheiro do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), mas logo depois foi demitida pela empresa e também perdeu o benefício.

Além dela, outras duas pessoas tiveram o benefício cancelado e buscaram favor de conhecidos para não ficarem na rua.
Vinicia Soares também esperava a mudança na quinta-feira, carregou para lá e para cá os móveis, pois não conseguiu carregar na quarta. Ela tem 5 filhos, e uma delas, de 12 anos, sofre com Lúpus, doença autoimune. Ela recebe auxílio doença e esse dinheiro, R$ 998, que sustenta toda a casa, pois a mulher, a mãe, que é cozinheira, está sem trabalho.

“Agora com o aluguel, esse dinheiro não vai dar pra nada. Já fiz inscrições do Minha Casa, Minha Vida, mas nunca fui contemplada. Já sofremos muito aqui e agora tudo acabou. É complicado, não sei o que vou fazer”, conta a mulher.
Além dos caminhões e servidores da Prefeitura de Cuiabá que reuniram os móveis da meia dúzia de moradores que ficaram para trás, a figura onipresente no local era da Polícia Militar. Abrigados em barracas em pontos estratégicos do Residencial Jonas Pinheiro, ou em rondas com viaturas pelas ruas, os agentes de segurança observavam a pouca movimentação do loteamento. Ao menos 10 viaturas circulavam no espaço.


Trabalhadores da Lumen S/A Construtora e Incorporadora, responsável pelo empreendimento, vistoriavam as casas e marcavam com um X aquelas que estavam totalmente desocupadas.

Ruas desertas, casas sem telhados, brinquedos deixados para trás, animais abandonados, o local nem parece que abrigava 379 famílias na véspera. Os espaços preenchidos pela música golpes no dia anterior, agora são preenchidos pelo silêncio. Os poucos semblantes vistos no local, só transmitem a tristeza de quem não tem como viver com dignidade, que depende da ajuda de conhecidos e desconhecidos para não ficar na rua.

Outro lado
A Prefeitura de Cuiabá foi procurada e informou que todas as 20 famílias selecionadas receberam a nova moradia. As casas alugadas pelo Município ficam no bairro Pedra 90, e o valor pago por cada uma é de R$ 800.

A assessoria de Cuiabá orientou quem tiver dúvidas a procurar a Secretaria Municipal de Habitação.

Um representante da Lumem, que não quis se identificar, informou que a Caixa Econômica Federal (CEF) irá inspecionar o local e levantar o aporte necessário para a conclusão da obra. A empresa irá retomar o empreendimento, mas ainda não há data para esse recomeço.

Galeria de fotos

Previous

image
image
image
image
image
image
image
image
image
image

NextPrevious

image
image
image
image
image
image
image
image
image
image

Next

Vídeo

VoltarImprimirComentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *